quinta-feira, 11 de outubro de 2007



Ano incrível


Pequenas oliveiras misturavam-se ao orvalho, no crepúsculo perdiam-se com o vento que oscilava de velocidade, e eu, tinha dezessete anos. A rua na qual nasci agora era diferente, o bairro era diferente, os vizinhos eram os mesmos, as casas eram as mesmas, mas a rua era diferente, o bairro era diferente, as distancias eram diferentes, o horizonte era diferente, agora eu tinha dezessete anos. Eu era livre, estava na idade a tanto esperada, nesse momento não era dada a mim a responsabilidade dos dezoito nem tão pouco a subserviência dos dezesseis, eu tinha dezessete. Era o dono da rua, era o dono do bairro, era o dono do mundo, nada era longe, a distancia sucumbia à liberdade, sempre sucumbe à liberdade, Ah! E eu tinha dezessete anos.
Conheci as mulheres por inteiro, o amor a pouco infantil, puro, misturava-se a uma paixão carnal, visceral, incontrolável, só agora realmente sentia-me vivo, e com elas, sentia a pulsação de um coração efêmero, o ranger de dentes úmidos de saliva, o lavoro contemplado com o suor, os corpos, as noites, os dias, as luas, os sóis, a lagrima e o tremor do fim, a solidão de um motel barato, uma televisão pequena, um canal erótico, e um cigarro. E eu, tinha dezessete anos.
Fazia aventuras, não tinha medo, aos dezessete somos imortais, mas só aos dezessete. Não pensava em política, alguns diziam-me despolitizado, irresponsável, mas porque ser politizado aos dezessete? Nessa idade não temos tempo, é o único momento em que não temos tempo.
Quando adultos pensamos não ter tempo, pelo trabalho, pelos problemas, mas só aos dezessete realmente não se tem tempo, há tanto o que se conhecer, há tanto o que se fazer, há um mundo a esmiuçar, mitos a desconstruir, novidades a procurar, afinal, só agora se tem dezessete.
Aos dezessete se pega carona em carros desconhecidos, viaja de mochila nas costas, sem receio, sem destino, ao léu, ao Deus dará. Aos dezoito pode-se voltar pra casa, procurar trabalho, fazer faculdade, ter uma profissão, mas aos dezessete, tenha calma, é tempo de morangos, renova-se aos dezessete, os tabus são derrubados, é tempo de desnudar-se.
Apaixona-se aos dezessete, bebe-se aos dezessete, só aos dezessete toma-se um porre, conhece uma garota, transa sem saber o nome dela, despede-se, pode-se até se arrepender, mas não se sofre por isso. Porém, aos dezessete o tempo passa mais rápido, aos dezessete os ponteiros são bandidos céleres, passam como chuva de verão, nem percebemos.
Assim, sejamos rápidos, aproveitemos cada instante, afinal, logo folhas de oliveiras se misturarão ao orvalho no crepúsculo e, perdendo-se com o vento que oscila de velocidade você terá dezoito. Mas, as ruas não mais serão as mesmas, o bairro, o mundo, não mais serão os mesmos, afinal você nuca vai esquecer aquele ano, seu ano, um ano incrível.
Joao Pedro Prado

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