
Poesia
Mas hei de prosseguir, continuar, esmorecer não posso. Tempos bons aqueles, ao seu lado. Olhos fundos, tristes os seus olhos, em minha frente o tempo passa, tudo passou na janela, cavalos alados, verdadeiros monstros mitológicos. Agora a pouco, como se nada quisesse, Pégaso, sem asas, confessou-me o pássaro que queria ser.
Suas pernas, tão bem torneadas, robustos quadris os seus, lembro entre um copo e um cigarro nossas pernas entrecruzadas, nossas mãos, encaixe perfeito, dedos entre dedos, palmas sobre palmas, e o calor exalado aquecia minha alma. Cada parte do meu corpo dependia de ti, depende de ti.
E agora eu choro, não por não te ter, mas por não te ter, contemplo a alvorada dos pássaros, e agora? Diante da janela vejo flores mortas, pra mim todas morrem, festas acabam, todas acabam. A minha derrocada diante de ti, antes ignorada, exala sangue, derrama sangue, e o descanso que me é de direito não posso ter, cada momento é esforço, palavras me faltam, ar me falta, angustia intacta essa, que não mais que de repente, eu tento camuflar em alegria. Divindade, acredito em ti, soberba minha tão exacerbada missão de confrontar-te. Aos poucos, com relativa paz me consumo, me contento, me completo.
A Maracangaia que vivi ao seu lado, por vezes indestrutível, abateu-se em terra, inerte, infértil, intacta. Rachaduras em constante evolução, partícipe das vãs filosofias mundanas, contemplo a estrada acabada, inacabado é quem a percorre, perfeito caminho de curvas simples, retas infindáveis, eu, perpendicular a elas, corto sua continuidade inabalada, assobio canções proibidas, menciono deuses proibidos, construo poesia, ando poesia, faço-te poesia, vivo poesia, amo-te poesia, morro poesia.
Joao Pedro Prado
Nenhum comentário:
Postar um comentário