
Epitáfio
Acorda amor, os cães já estão próximos, posso ouvir seu ladrar soando, alaridos constantemente repetidos, os passos. A luz das lanternas escurecem-me os olhos, a chuva. Pegue o máximo que puder, roupas, livros, objetos pessoais, não esqueça o Neruda e o cd de Victor Hara, eu os deixei na estante, vai precisar. Se der tempo, coloque na vitrola um tango, lembre de mim, lembre de nós.
Vá para um lugar seguro, fique a salva, procure um deserto, procure a multidão, não lute, a partir de agora contente-se com tudo, acostume-se, eles estão em todos os lugares, fui pego, escrevo-te, dia após dia pereço.
Fale pra mãe que a ordem natural vai inverter-se. Sei que irá sofrer, talvez ela diga: “eu disse, isso é luta perdida, mas sempre foi teimoso, agora aí ó.” Pro pai, diga que fui pelo que acreditava, creio que ele aceite, pode não entender, mas vai aceitar. Ficarão tristes, mas o tempo fará terem orgulho de mim, espero, mas, se não tiverem, pouca diferença faz, perecerei mesmo, e por algo que acreditei.
Amor acorda, não deixe te pegarem, não posso pensar você sofrendo, com as mulheres eles são ainda piores. Fuja pelos fundos, corra, não olhe para trás. Case-se, de preferência com um funcionário público, daqueles bem Caxias, apague a mancha que te borrei, vai ser dona de casa, cozinhar, engomar, passar, fazer compras, cuidar das crianças. Gostaria que um de seus filhos tivesse meu nome, pode ser pretensão minha, egoísmo, mas ficaria lisonjeado com tal homenagem, afinal, morri te amando.
Hoje, se disser que sinto medo estarei mentindo, não sinto nada. No inicio sim, tinha medo, principalmente de te perder, fui morrendo aos poucos, você amor, era a motivação que me fazia resistir, mas eles são bons, conseguiram aniquilar-me, não tenho a força que você tem, sou fraco, agora não quero que me veja, sou nocivo. Choro todas as noites, não é de medo, meus sentidos me faltam, só se tem medo enquanto se tem algo a perder, meus sentidos sucumbiram a uma penumbra que me acompanha, às vezes converso com ela, não tem forma definida, não parece pessoa, ou animal, também não me responde, o que tira de mim todas possibilidades de esquizofrenia, infelizmente.
Já pensei em me matar, não concretizei, nunca fui corajoso, estou à mercê deles, minha covardia é tamanha que dependo até para morrer. Peço-lhe desculpas amor, a sorte é que, não “transmiti ao mundo frutos da minha insignificância”, terás o benefício de não ter uma prólie capenga, covarde, dependente, que provavelmente carregaria uma genealogia, rastejante, penosa.
Levanta amor. Pode até nem chegar a ler essa carta, pode talvez nunca chegar a tocá-la, mas, escrevo-te para despertar-te, acorda amor, eles tão chegando. Sugiro que vá, agora, deixe um tango argentino tocando, em cima da vitrola coloque nosso vinho mais caro, duas taças, e deixe escrito, em letras garrafais, um poema de Augusto dos Anjos.
Fale pra mãe que a ordem natural vai inverter-se. Sei que irá sofrer, talvez ela diga: “eu disse, isso é luta perdida, mas sempre foi teimoso, agora aí ó.” Pro pai, diga que fui pelo que acreditava, creio que ele aceite, pode não entender, mas vai aceitar. Ficarão tristes, mas o tempo fará terem orgulho de mim, espero, mas, se não tiverem, pouca diferença faz, perecerei mesmo, e por algo que acreditei.
Amor acorda, não deixe te pegarem, não posso pensar você sofrendo, com as mulheres eles são ainda piores. Fuja pelos fundos, corra, não olhe para trás. Case-se, de preferência com um funcionário público, daqueles bem Caxias, apague a mancha que te borrei, vai ser dona de casa, cozinhar, engomar, passar, fazer compras, cuidar das crianças. Gostaria que um de seus filhos tivesse meu nome, pode ser pretensão minha, egoísmo, mas ficaria lisonjeado com tal homenagem, afinal, morri te amando.
Hoje, se disser que sinto medo estarei mentindo, não sinto nada. No inicio sim, tinha medo, principalmente de te perder, fui morrendo aos poucos, você amor, era a motivação que me fazia resistir, mas eles são bons, conseguiram aniquilar-me, não tenho a força que você tem, sou fraco, agora não quero que me veja, sou nocivo. Choro todas as noites, não é de medo, meus sentidos me faltam, só se tem medo enquanto se tem algo a perder, meus sentidos sucumbiram a uma penumbra que me acompanha, às vezes converso com ela, não tem forma definida, não parece pessoa, ou animal, também não me responde, o que tira de mim todas possibilidades de esquizofrenia, infelizmente.
Já pensei em me matar, não concretizei, nunca fui corajoso, estou à mercê deles, minha covardia é tamanha que dependo até para morrer. Peço-lhe desculpas amor, a sorte é que, não “transmiti ao mundo frutos da minha insignificância”, terás o benefício de não ter uma prólie capenga, covarde, dependente, que provavelmente carregaria uma genealogia, rastejante, penosa.
Levanta amor. Pode até nem chegar a ler essa carta, pode talvez nunca chegar a tocá-la, mas, escrevo-te para despertar-te, acorda amor, eles tão chegando. Sugiro que vá, agora, deixe um tango argentino tocando, em cima da vitrola coloque nosso vinho mais caro, duas taças, e deixe escrito, em letras garrafais, um poema de Augusto dos Anjos.
Joao Pedro Prado.
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