domingo, 14 de outubro de 2007


Os cômodos

Angustia. Era a palavra que conseguia repetir a cada segundo, o claustro lhe é familiar, as paredes úmidas, parecem a muito edificadas, os aposentos bem arrumados, o faz relembrar de momentos felizes, na prateleira, as taças de diferentes qualidades, brilhando, reflete o amplo espaço da cozinha, com uma mesa para oito lugares no centro, encoberta por um tecido fino que, transparente, deixa a mostra o tom verniz do móvel. Vagarosamente, vai à sala, de frente à porta a escada imponente leva-o a um corredor, com portas alternadas nas paredes, à direita, a primeira porta, fora abrindo aos poucos, no seu interior, a cama bem forrada, a estante, carros de brinquedo, bonecos, ursos, relembravam o movimento que já fora aquela casa, na parede, o relógio, parado, o fez voltar no tempo. Foi lá, deu corda, ajustou o horário real, e sem olhar pra trás fechou a porta. Há muito não via seu filho, falavam-se por telefone às vezes, depois que sua mulher morrera ficou ainda mais esporádicos os telefonemas, esperava-o a qualquer momento, como que de surpresa chegasse, apresentasse a ele seus netos, sua esposa, se houverem afinal, era só. Ainda no corredor abrira a próxima porta, o quarto era de hospedes, cama muito bem arrumada, não recebia ninguém em sua casa há tempos, respirou um pouco do cheiro de fechado, do seu lado direito a suíte apresentava uma fresta de luz desconhecida, saía do telhado, algum gato havia tido por ali, as telhas estavam separadas. O filete iluminava a mármore da pia, lavou a torneira, era evidente a camada de poeira, depois lavou as mãos, procurou uma toalha para secar-se, sem encontra-la, enxugou-se na roupa, sorriu amarelo como que se envergonhasse de si mesmo, e saíu. No fim da galeria, de frente, a passos contínuos, aproximou-se, titubeou um pouco em abrir aporta, estava lá, a alcova de trinta e sete anos de casamento, também muito bem forrada, ao lado podia-se ver a poltrona na qual lia os jornais, ainda cedo, entre cigarros e olhares admirados pra sua mulher dormindo. Duas janelas à esquerda possibilitava-o ver um pedaço do céu que, perdia-se no final de tarde, misturado com o horizonte. No guarda-roupas, as roupas dela ainda estavam lá, tomou-as com voracidade, o cheiro de naftalina pareceu-lhe acolhedor, aspirava-o com ímpeto, e chorava, seus soluços ecoavam em todos os cômodos da casa, o vestido, entre seus dedos amarrotava-se, era belo, branco com detalhes em tons de azul, deveria sua mulher ficar linda no modelito. Mirou a pintura da mulher, nesse momento parecia ainda mais atraente, seu busto descoberto o fez lembrar das massagens, dos beijos, das diferentes sensações as quais passava e a fazia passar, mas a memória desfez-se na realidade, seu corpo desfalecido na cama, onde nunca mais voltara a se deitar, não mais dormira depois da morte dela, seu sono consistia em cochilos em locais indefinidos da casa. Dorme na maioria das vezes na biblioteca, onde também passa a maioria do tempo, lê, conhece, algumas vezes esquece, outras vezes lembra, relembra, mas sempre, há angustia, solidão, e a vontade constante de morrer.

3 comentários:

Anônimo disse...

Joãoooooooooo

toh d blog tbm!!

bjs

Anônimo disse...

Joãoooooooooo

toh d blog tbm!!

bjs

Unknown disse...

Hum... interessante seu poste. Não sei explicar o porquê, mas seu post me fez pensar no sentido da vida e nas coisas que dão sentido a ela, mesmo quando achamos que algumas dessas coisas tiram o sentido dela. A angustia por exemplo. Ela existe e tem um sentido para existir, um motivo. Certo professor que passou pelos horrores do campo de concentração de Auschwitz, observou em meio a sua angustia:" Nada no mundo ajuda a pessoa tão efetivamente a sobreviver, até mesmo nas piores condições, do que saber que a sua vida tem sentido."

Bjinhos